As projeções da mente

O relato abaixo foi produzido pela Valéria, minha esposa e também terapeuta.

Esse texto ilustra claramento o funcionamento de nossos mecanismos internos, é um exemplo prático de como nosso sistema inconsciente funciona através das projeções de nossas memórias.

Nossa mente, atualmente dominada por uma energia um tanto obscura chamada ego, também pode ser comparada a um livro de muitos volumes. Dentro destas páginas está nossa história – às vezes como vítima, outras como agressor. Interpretamos e invertemos estes papéis que decoramos ao longo de nossas vidas, nos condicionamos a eles e acreditamos que estes personagens são nosso próprio SER. Em geral, não percebemos e, o que é pior, resistimos à mudança.

Este caso não é exceção, pelo contrário, é praticamente uma regra. O problema é que poucas pessoas se dão conta disso.

“A primeira vez que a Maria me procurou, há alguns meses atrás, trabalhamos alguns aspectos relacionados à sua infância com a avó. Nesta sessão de pouco mais de uma hora, senti que ainda existiam muitas coisas pra limpar, embora ela dissesse que estava tudo resolvido, que não tinha raiva ou ressentimento. Por experiência, sabia que uma única sessão era insuficiente devido a sua conturbada história de infância: quando era pequena a mãe foi embora e a deixou com mais 4 irmãos com a avó. Por três vezes Maria foi “doada” pela avó para outra família cuidar, mas ela própria não queria e acabava fugindo e voltando para casa. Seus irmãos eram sempre bem tratados, mas a limpeza da casa era sempre por conta dela. Quando não dava conta do trabalho que a avó determinava ou não fazia do jeito que ela gostaria, era humilhada, maltratada e tinha que fazer o serviço novamente. Maria se sentia injustiçada porque era a única dos irmãos tratada desta maneira, tinha raiva de tudo por não ter atenção que gostaria.

Outro ponto interessante nesta ocasião é que percebi que haviam sentimentos relacionados a outras pessoas que ela não queria curar. Ela tinha noção disso, mas preferiu manter desta maneira mesmo – o velho apego ao sofrimento e a resistência ao perdão.

Depois de meses ela me procurou para mais uma sessão com a reclamação de que estava sentindo muita raiva do marido, que sentia que não existia mais companheirismo, que ele não dava atenção pra ela. Dizia ainda que com ela o marido agia diferente, não dava valor para as pessoas que viviam com ele. Estes eram motivos de brigas constantes e ela se sentia injustiçada com tudo isso.

Conforme fomos trabalhando com a EFT, a raiva do marido baixou de 10 para 6. Como eu já conhecia seu histórico, por intuição durante as rodadas fiz uma pergunta: será que estes fatos não estão ligados ainda aos sentimentos com minha avó? Neste momento, ela começou a chorar – a EFT bem direcionada fez aflorar sentimentos de tristeza e raiva. Perguntei por que estes sentimentos, ela novamente falou que lembrou-se da avó. Somente neste ponto do trabalho é que Maria se deu conta que os sentimentos que ela tinha pela avó ainda existiam e eram os mesmos que hoje ela sentia pelo marido: abandono, falta de atenção, falta de respeito, se sentia injustiçada.

Conforme fomos trabalhando a tristeza e raiva pela avó, os mesmos sentimentos pelo marido foram cedendo. Ela também percebeu que os sentimentos de abandono e não ter o valor que gostaria do marido eram apenas projeções do passado – ela estava descontando na pessoa errada, por isso sentia que tudo que o marido fazia sempre era pouco.”

Outro ponto interessante é que por conhecer a história de seu marido, sei que ele também teve muitos conflitos com a mãe. Novamente por projeção de situações mal resolvidas, os conflitos que ele tem tido com a Maria não são mais do que formas de descontar a insatisfação com a mãe. Como semelhante atrai semelhante, seu inconsciente buscou alguém para relacionar-se de forma similar, onde a negatividade do casamento – suas brigas e conflitos – poderia continuar alimentando seu ego, gerando mais dor e sofrimento.

Quanto tempo dura uma situação desta, tipo gato-e-rato? O tempo necessário para que se crie a consciência necessária de que algo precisa mudar. É claro que ninguém busca sofrimento de forma voluntária, mas ele é precisamente o mal necessário para que a pessoa se dê conta de que algo dentro dela precisa de mudança, e é o único capaz de fazer surgir a luz da consciência e do bem estar.

Caso não exista esta percepção e ocorra uma separação – algo tão comum hoje justamente porque os casamentos são baseados unicamente em desejos e não em amor consciente, onde as pessoas se transformaram em mero objeto de consumo – a busca por outro parceiro que complete suas necessidades emocionais negativas será certa. E novamente surgirão mais tristezas e frustrações. Muitas vezes é somente aí que a pessoa se dá conta de que está num circulo vicioso de paixão e amargura e que a unica forma de mudar este ciclo é uma mudança interna.

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Rafael Zen

Eu sou fascinado pelos mistérios e conexões entre o corpo, a mente e a consciência. E o que poderia existir de mais transformador do que o conhecimento de si mesmo?
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