A necessidade de ter reconhecimento

Na última semana falei sobre vários distúrbios originados pelo ressentimento inconsciente, e sobre como estas impressões não digeridas do passado – e que não foram emocionalmente limpas, aceitas e compreendidas – afetam seu presente. Embora todos os exemplos mencionados sejam importantes em nosso autodescobrimento, houve uma característica que não mencionei porque ela é merecedora de especial atenção por ser algo recorrente em um ambiente terapêutico: a necessidade de ser reconhecido.

Assim como outras formas de negatividade inconsciente, esta também dificilmente é percebida e nos leva a tomar decisões sem ter a clara noção da sua real motivação.

Desta vez vou começar com alguns exemplos:

A moça inteligente e talentosa deixa seu emprego para abrir o próprio negócio – uma loja de roupas. Chama um consultor de marketing para aprimorar suas ideias, ao que este avisa: “o perfil de consumidores que você está buscando não se enquadra neste bairro”. Ela insiste. Três meses depois e um prejuízo de oitenta mil reais a fizeram reconsiderar. Muda-se de cidade e resolve estudar direito para tornar-se juíza (?).

Porque ela colocou uma loja em um bairro inadequado? Porque sua sogra morava perto, assim ela podia provar seu sucesso nos negócios. E porque tornar-se juíza? Mais uma vez, pela necessidade de mostrar que era capaz…

Outra moça, tão talentosa e inteligente quanto a primeira, recebe elogios e destaca-se em tudo que faz – embora sinta-se incomodada com os elogios, porque acredita que “não está tão bom assim”. Quando é convidada para ministrar um evento, fica empolgada na hora mas depois torna-se insegura. “As pessoas acham que faço tudo certo, mas eu não acho” – é uma frase recorrente.

O que nutre este sentimento de imperfeição constante? Em uma de suas lembranças durante a sessão de EFT, lembra-se de estar mostrando um boletim escolar (com boas notas) ao pai, que faz pouco caso dizendo “não fez mais do que a obrigação”. Curiosamente (ou inconscientemente?) tornou-se uma educadora de destaque…

Ambas, mulheres capazes e inteligentes, com contextos de vida totalmente diferentes, mas com conflitos inconscientes que direcionam suas vidas e atitudes sem que reconheçam quais são suas verdadeiras motivações. Há muitas emoções comuns envolvidas nos exemplos acima, que de forma implícita ou subjacente movem cada uma delas: insegurança, carência e medo, resultando em baixa autoestima e autoconfiança.

O reconhecimento como forma de autoafirmação

Buscar reconhecimento é querer destacar-se buscando gratificação emocional. Destacar-se nunca é um problema por si só, mas a motivação que o conduz para isso é – e é nesta sutil diferença que devemos atentar. Se a empresa que você trabalha elege periodicamente um “funcionário do mês” – e você foi eleito – talvez sua foto fique pendurada na parede e todos saibam quem é você. Se este é o resultado de um trabalho responsável e bem feito, então não há nada de errado nisto. Mas se você dá o máximo para que sua foto apareça, então aí temos o princípio de um distúrbio.

Albert Einstein, que foi admirado quase como sobre-humano e acabou se tornando uma das pessoas mais famosas do planeta, nunca se identificou com a imagem que a mente coletiva criou dele. Permaneceu humilde, e chegou a dizer o seguinte: “…uma contradição grotesca entre o que as pessoas consideram ser minhas conquistas e habilidades e a realidade de quem eu sou e do que sou capaz.”

 

A necessidade de reconhecimento surge quando existe insegurança e você não confia em si próprio. Assim, precisa que outras pessoas digam que você é bom, capaz, ou teçam qualquer outro tipo de elogio que o faça sentir-se bem; é quando colocamos nosso senso de identidade nas palavras dos outros. É claro que isso vai gerar problemas: o mais evidente é que desta maneira permanecemos na eterna expectativa de receber elogios, e isso é algo que pode nunca acontecer.

Há poucos meses atrás tivemos o caso de um músico brasileiro, líder de uma banda santista, que suicidou-se quando foi criticado por seus fãs. Ele já tinha reconhecimento profissional, tampouco era uma questão de dinheiro. Mas é obvio que as expectativas que construiu sobre seu desempenho estavam muito altas, e quando a onda recuou, ele não conseguiu lidar com a frustração por não ter sido correspondido como esperava. Embora não tivesse medo de enfrentar palcos, a insegurança que carregava (e que possivelmente direcionou suas escolhas pessoais e profissionais) aflorou neste momento.

Aí surge a pergunta: mas como uma pessoa insegura tem coragem de se expor como ele fazia? Não se espante com a resposta: o medo e a insegurança movem o mundo, portanto este comportamento é muito mais comum do que se imagina. Celebridades, esportistas, atores e quebradores de recordes em geral comumente escolhem suas profissões buscando exposição, provando desta maneira a si mesmos (e ao mundo) que são capazes. É esta mesma necessidade que move inclusive a sexualização exagerada em nosso mundo: tudo não passa de uma forma de autoafirmação (mesmo que a gratificação exista anotando em sua caderneta seus inúmeros parceiros sexuais).

O problema é que as inseguranças apenas adormecem para aflorar em outro período de vida (o caso citado é apenas um entre muitos neste meio). Os exageros, excessos, exposições e extravagâncias transformam-se em artifícios para mostrar ao mundo – e a si próprios – como estas pessoas se consideram importantes. Não sabem, mas dependem da opinião alheia para formarem seu senso de identidade e tentarem se encontrar.

Mas existem lições embutidas que podemos aprender com estes casos, e que podem ser transcritas mais ou menos assim:

“Não deixe que outras pessoas digam quem você é porque elas podem mudar de opinião” – e isso vai acontecer! A Impermanência é uma lei da vida, e sábio é aquele que permanece o mesmo diante do elogio e da ofensa.

Ou ainda: não viva de acordo com as expectativas de ninguém – nem mesmo as suas!

E principalmente: sem uma verdadeira mudança de consciência, seremos vítimas de nossos próprios desejos! Não é o que você faz, tampouco seu grau de instrução, tudo isto é secundário. É a qualidade de sua ação, COMO VOCÊ FAZ é o diferencial. Ambas as mulheres mencionadas acima são pessoas inteligentes, idôneas e capazes. Não é uma questão de QI, mas de aprender a ser emocionalmente inteligente.

E por fim: nem todos são livres em suas escolhas! Enquanto existir ressentimento, a necessidade de provar algo e ser reconhecido continuará latente. Por isso, a menos que esteja em paz interior, por maiores que sejam seus esforços, sempre poderá existir uma estranha sensação latente de “não é suficiente” ou “eu não mereço”. Preste atenção a estas sensações, são elas quem revelam a verdade sobre suas motivações.

E como não poderia deixar de ser, o único meio de eliminar sua falhas é encarando-as, não fugindo delas. Então pergunte-se: existiram episódios em minha vida em que precisei provar algo pra alguém? Ou que tenha feito o máximo e as pessoas próximas tenham me avaliado como o mínimo?

Para que a EFT seja funcional, é preciso ser específico: quando isso aconteceu? Onde você estava? Com quem estava? Procure episódios de pouca-valorização, medo, insegurança e eventos que o fizeram acreditar em frases que não eram suas, principalmente diminuindo sua identidade. Monte esta cena mentalmente, traga ao seu corpo aquelas impressões negativas que precisam ser eliminadas e mãos e obra!

 

Siga-me!

Rafael Zen

Eu sou fascinado pelos mistérios e conexões entre o corpo, a mente e a consciência. E o que poderia existir de mais transformador do que o conhecimento de si mesmo?
Siga-me!

Últimos posts por Rafael Zen (exibir todos)

2 thoughts on “A necessidade de ter reconhecimento

  1. Bom dia , relacionado a este assunto ,o que posso fazer? Pois minha esposa tem essa necessidade de ser reconhecida a todo instante desde quando a conheci ,há 23 anos .confesso que já estou sem paciência .

    Luís

    1. Olá Luis! Esta é uma daquelas situações que “não tem jeito”: se a pessoa afetada (no caso, sua esposa) não perceber o mal que está fazendo a si mesma com esta atitude, ninguém pode fazer nada por ela. Talvez voce pudesse explicar seu ponto de vista, e sugerir que ela procure um terapeuta pra mudar este comportamento. E por outro lado, se vc está sem paciência, um terapeuta também pode ajuda-lo a se libertar deste fardo!
      Um abraço

Comente! Sua opinião é importante pra nós!