A sombra e a ancestralidade

O fruto nunca cai longe do pé” – diz o ditado. E nós precisamos aprender com a natureza, porque tudo que existe fora, existe dentro.

No último artigo falamos sobre a sombra, como identifica-la e, por fim, parar de fugir desta que é apenas mais uma de suas incontáveis partes. Mas a cereja do bolo ficou pra hoje: como suas raízes familiares influenciam seu comportamento.

Vou começar contando uma pequena história pessoal. Há alguns anos atrás, fui passar uns dias de verão com a família na casa do meu pai.

Quando somos crianças temos muitas fantasias que fazem com que pais e super-heróis acabem se tornando o mesmo personagem.

Quando somos adolescentes, destruímos esta imagem e os transformamos em vilões brutais e opressores.

Com alguma experiência, percebemos que nem um nem outro rótulo estão corretos, são apenas dois (entre muitos) pontos de vista. Qual é a verdade então? Ela costuma se revelar apenas um pouco mais tarde, quando já estamos mais maduros. E comigo não foi diferente…

Depois de muitos anos afastado da rotina e da convivência, permanecer alguns dias na companhia do meu pai estava quase se transformando em outro episódio da série “missão impossível”. O que vi foi um velho rabugento e brigão. Reclamava muito, tinha o olhar sempre tenso e dava amostras verbais de que estava sempre pronto pra arrumar mais um motivo de desavença mental. Eu tinha certeza de que, pra ele, nada estava bom.

Qual não foi minha surpresa ao encontrar elementos dele em meu filho: guardadas as devidas proporções, era um xerox reduzido! Mas o pior não parou por aí: se vejo meu pai se comportando desta maneira, se vejo meu próprio filho do mesmo jeito, então não dava pra negar que eu deveria ser igual. E era mesmo: reclamão e rabugento!

Porque eu demorei tanto pra perceber?

Porque somente depois dos 30 anos é que fui me dar conta disso? O motivo (agora) é obvio: essas eram características que eu nunca quis enxergar porque me faziam uma pessoa inaceitável. Só isso! Somado ao fato de que eu carregava a “síndrome do rejeitado”, eu tinha um prato cheio pra me dar mal.

Mas vamos aos fatos: não temos como negar que metade do nosso corpo veio do pai, e a outra metade (ou deveria ser quase todo ele?) da mãe. Carregamos ambos em nosso sangue, além dos avós, bisavós e por aí vai… Temos suas virtudes e, como não poderia deixar de ser, suas falhas. Mas isso não é um problema, É apenas o que É: parte da nossa realidade. Os problemas começam com a negação de quem somos.

Faça um exercício pra compreender: que trejeitos, comportamentos ou maneirismos de seus pais você desaprova? Que atitudes ainda hoje causam mágoa ou ressentimento? Nas suas memórias, existem eventos marcantes que ainda causam desconforto?

Algumas pessoas – muito honestas, diga-se de passagem – precisam de várias folhas pra relacionar todos os pontos encontrados. Outras resumem tudo a uma ou duas palavras. Seja qual for sua opção, saiba que você está certo. Só que o que você pode não saber é que estes mesmos defeitos apontados SÃO SEUS (e não é apenas força de expressão) e você OS ESTÁ COMETENDO agora mesmo. E porque não os viu ainda? Pelo mesmo motivo que eu: porque nega – e aí, o jogo de gato e rato começa…

Quem não conhece alguém que diz: “você é a cara do seu pai!”? Saiba que quanto mais parecidos somos fisicamente, mais semelhantes somos emocionalmente. E quanto mais negamos este fato, mais parecidos nos tornados. E este é um paradoxo extraordinário!

Atendi clientes com mágoas profundas das agressões passadas cometidas pelo pai; estas pessoas tinham as mesmas queixas do pai que seus companheiro(a)s tinham delas no momento presente…

Outros, que se sentiam abandonado(a)s – mas não percebiam que faziam a mesma coisa com outras pessoas ou seus próprios projetos de vida: simplesmente abandonavam o que começavam sem motivo aparente…

Conheci outros rejeitados como eu mesmo me sentira, e que em certas etapas da vida projetavam este mesmo sentimento no mundo ao redor, muitas vezes encerrando amizades sem nenhuma explicação coerente, perpetuando o mesmo sentimento de exclusão…

O que nenhuma destas pessoas sabia é que estavam apenas repetindo ciclos de família, estavam revivendo – ou reeditando – a mesma história dos seus pais, que viveram a história dos avós, que viveram a dos bisavós…

No livro “O ciclo da Auto sabotagem” do psiquiatra Stanley Rosner, o autor menciona um caso clínico em que o cliente, bem casado e com uma vida estável, estava decido a abandonar a casa porque se sentia cansado da relação. Mas a investigação mostrou que ele estava fazendo a mesma coisa que seu pai havia feito: sair de casa – e surpreendentemente, na mesma idade!…

Enquanto não despertamos para a vida, somos apenas engrenagens adormecidas da cultura em que vivemos. Enquanto não nos autoconhecemos, seremos apenas marionetes controladas por impulsos que nem sequer sabíamos que existiam…

Quer conhecer mais uma parte sombria?

Investigue suas origens, sua família, e vai descobrir que até mesmo a raça ou país de seus antepassados ainda estão vivos dentro de você, em suas atitudes diárias, AQUI E AGORA – quer os aceite, quer não…

Mas aí entra um fato interessante: eles – e nós – fazemos assim apenas porque não sabemos fazer diferente – pelo menos, até agora.

Existe uma anedota que ilustra isso: a garota recém casada vai preparar um peixe pro almoço. O marido pergunta: querida, porque você tira o rabo e a cabeça do peixe? Ela diz: porque aprendi com a minha mãe. Ambos perguntam pra mãe, que responde: aprendi com sua avó. Então, interpelando a velhinha, descobrem o terrível segredo: – minha neta, no meu tempo não existia assadeira maior!

Repetir comportamentos ancestrais causa pra nós os mesmos problemas do passado com roupagem nova. Muda o circo, mas os palhaços são os mesmos…

E compreender que nos sujeitamos a isso apenas por agir de maneira inconsciente (espiritualmente falando) nos dá o entendimento sobre porque as culturas ancestrais dão tanta importância ao culto aos antepassados. Eles sabem que sem o devido reconhecimento e gratidão, estarão subordinadas as mesmas falhas. Eles aprendem com o passado, não o reeditam; aperfeiçoam, não repetem.

Mas vamos as conclusões mais interessantes dessa jornada: como saímos do círculo vicioso? A resposta é a mais simples possível: perdoe. E ao fazer um gesto tão simples, além de libertar-se de sofrimento desnecessário, você ainda alivia o fardo daqueles que estiveram neste mundo antes de você. Lembre-se que somos todos um, e cada pequena mudança ressona no TODO…

Perdoar é um exercício de abandono e desapego. Você larga o passado onde ele estava: ontem, e permite que o presente aconteça sem peso ou condicionamentos. Você se abre ao novo…

Como você vai saber que realmente perdoou?

Isso também é simples: quando a atitude do seu semelhante, seja familiar ou não, já não é motivo de desconforto ou crítica, então o milagre aconteceu. Nós passamos a observar as falhas das outras pessoas com compaixão, porque elas erram apenas por não saber fazer diferente – assim como nós, seres imperfeitos, ainda fazemos…

E eu já estava esquecendo: meu pai hoje vai muito bem, graças a Deus! A pequena história que eu relatei ocorreu pouco depois que minha mãe deixou este mundo, e ele vivia um período turbulento de confronto com a própria sombra…

Minha rejeição passava por ele e também por minha mãe, que foi abandonada quando bebê.

E como não poderia deixar de ser, quanto mais eu os aceito e honro sua história no tapete da existência, quanto mais aprendo e agradeço, mais leve se torna a vida de todos nós…

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Rafael Zen

Eu sou fascinado pelos mistérios e conexões entre o corpo, a mente e a consciência. E o que poderia existir de mais transformador do que o conhecimento de si mesmo?
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2 thoughts on “A sombra e a ancestralidade

  1. Estou imensamente grata por esta mensagem, realmente tem tudo haver, estava exatamente tentando encontrar alguma dica sobre como curar partes da minha negatividade qeu interrompe meu progresso. Namastê

  2. Boa tarde e obrigado.
    É uma coisa que sempre procuro afirmar e confirmar; a melhor maneira de levar a vida é perdoando. Isso é um ato de amor a n´s mesmo e ao próximo. Gostei da sua colocação. Se queremos progredir, o primeiro passo é perdoar nossos pais pelo que fizeram e também pelo que não fizeram.
    Abraço
    Antonio Melchiades

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