O universo dos espelhos

“Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro acorda.” – Carl G. Jung

Tenho um amigo de muitos anos que há pouco tempo trocou de carro: modelo do ano, maior, mais alto… O fenômeno curioso é que apesar de ser uma pessoa aparentemente pacífica, ordeira, sofre uma transformação ao sentar-se no banco do motorista. Ultrapassagens arriscadas, fechadas bruscas e frenagens abruptas se destacam – embora ele veja isso de forma muito natural. O curioso é que sempre se depara com outros maus motoristas (no seu ponto de vista, é claro). Neste momento ele não vê incômodo algum em se queixar e, eventualmente, parar e proferir palavras pouco sociais ao outro motorista…

Outra conhecida vive em ligações telefônicas fazendo reclamações. É a operadora de telefone que cobra um serviço que não funciona, o aparelho celular com problemas, o notebook novo com defeito ou o banco online ineficiente. Em raras ocasiões não a encontro pendurada no telefone abrindo mais uma queixa: “esta já é quarta ligação hoje…” – foi a ultima coisa que ouvi dela, rispidamente, junto a outro SAC dias atrás. Em outra ocasião, cogitou queixar-se com um fabricante de computadores porque seu equipamento “com apenas seis anos” já não aceita a instalação de alguns aplicativos – “um absurdo!”  Sempre existe algo pra reclamar…

Situações que se repetem, aparentes coincidências afetando constantemente a vida da mesma pessoa. Azar? Destino? Nada disso, apenas o reflexo externo de desarmonias interiores. Por automóvel, telefone ou simplesmente nos inter-relacionando com aqueles que nos rodeiam, cada um de nós está constantemente olhando a si próprio em todos os momentos de nossa vida. Esse é o grande mistério e a magia do mundo dos espelhos: vemos através de nossos olhos materiais a nós mesmos, nossa própria psique, quem realmente somos, refletidos em nossos semelhantes, a cada minuto, a cada momento…

Poderia ser qualquer coisa: empregos ruins, relacionamentos instáveis, dificuldade financeira – ou o oposto! Não há limites, tudo, absolutamente tudo que nós vivenciamos, é apenas uma amostra de nosso próprio estado de consciência. E esse é o “X” da questão: sendo criaturas que vivem controlados pelo subconsciente 95% do tempo, que realidades esperamos criar?

Pessoas semelhantes tendem a se atrair porque reconhecemos, de forma subconsciente, um pouco de nós no outro, criando um processo chamado simpatia mecânica. Quando estamos harmonizados conosco mesmos, encontrar pessoas afins é reconfortante. Por outro lado, pessoas instáveis tendem a espelhar, reconhecer e trazer para suas realidades mais instabilidades e problemas.

Conheci um casal que mudou de cidade para, diziam, “melhorar sua qualidade de vida”. Deixaram situações problemáticas para trás e queriam recomeçar. Em poucas semanas as situações negativas recomeçaram. Queixavam-se da sua área profissional – enquanto outros concorrentes estavam em franco crescimento; queixavam-se dos amigos, mas não se davam conta que eram os geradores das críticas e julgamentos negativos (errar sem perceber, fruto inevitável da inconsciência). Logo, irremediavelmente, estavam cercados de mais desentendimentos – mais repetições, mais espelhamentos. Esqueceram apenas o ponto principal: onde você for, seu interior e toda sua bagagem emocional vão junto! Esteja onde estiver, verá sempre reflexos de si próprio…

“Dize-me com quem andas e te direi que és” reflete muito nossa realidade. Um estudo revela que pessoas com vínculos de amizade mais próximos têm até mesmo salários semelhantes (com oscilação de + ou – 20%!).

Amizades também nos servem de alerta sobre quem somos, já que elas existem por afinidade. Também são indício inegável de mudança interior: perdemos contato com pessoas que não correspondem mais ao nosso nível de ser, e compartilhamos nossas vidas com seres que naquele momento são mais afins conosco. Não é algo pensado ou planejado, não é preciso ter diferenças visíveis ou desentendimentos, é algo que simplesmente acontece…

Alguns sábios vão mais longe: dizem que nosso mundo é como um rolo de filme fotográfico em negativo de nossas emoções, ou seja, vemos no exterior o oposto da realidade interior – um dos motivos pelos quais dizemos que nosso mundo é uma ilusão. Eu explico: quando alguém me fala que busca concurso publico em busca de estabilidade, sei que esta costuma ser uma tentativa de encobrir insegurança financeira. Falar demais sobre as falhas dos outros apenas encobre as suas próprias.

Em um exemplo prático, cada vez que a moça saía com o namorado, acreditava que outras mulheres no estabelecimento a estavam menosprezando com o olhar. Se isso era verdade ou não, nunca saberemos. Mas que ela própria se sentia menosprezada (e projetava inversamente este sentimento em outras pessoas) eu não tenho a menor dúvida.

Nem tudo é o que parece…

Por fim, quando falamos em espelhos, existe ainda outro ponto a ser considerado: reflexo significa também retorno. Projete luz diretamente num espelho e verá que ela retorna ao ponto emissor. Soque uma parede e a mesma energia será devolvida a sua mão (que por motivos óbvios será a mais afetada!). Toda forma de energia que despejamos no mundo retorna pra nós. São leis físicas, leis do mundo natural, que existem dentro e fora de todos os seres vivos…

Depois de tudo isso, creio que fica fácil entender a mensagem de São Francisco em sua oração que diz: “É dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado…”

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Rafael Zen

Eu sou fascinado pelos mistérios e conexões entre o corpo, a mente e a consciência. E o que poderia existir de mais transformador do que o conhecimento de si mesmo?
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